Documentário

Realizador do Projeto Instituto Popular do Recôncavo - IPR BAHI

A Cidade de
Bom Jesus da Lapa

Bom Jesus da Lapa é um município localizado na região oeste do Estado da Bahia, situado a 850 km da capital. Sua população em 20019 é de 69.168 habitantes conforme o IBGE. Possui uma área total de 4.116 km² e é banhada pelo rio São Francisco. Suas atividades econômicas estão baseadas na agricultura, pecuária, comércio, turismo e pesca.

A cidade de Bom Jesus da Lapa concentra a terceira maior romaria do Brasil, no mês de agosto, conhecida como a romaria do Bom Jesus em que atrai milhares de fiéis todos os anos. O grande diferencial entre Bom Jesus da Lapa e as outras cidades da região é o morro e suas grutas que lhe conferem um clima místico e diferenciado e o estado permanente de romarias.

A cidade de Bom Jesus da Lapa começou sua existência à sombra do Santuário do Bom Jesus. Na data em que o Monge chegou a este lugar, havia entre o morro e o rio São Francisco apenas algumas palhoças de índios Tapuias. Mas, com o tempo, foram agregando-se devotos que resolveram fazer suas moradias perto do lugar, onde se achava a imagem do Bom Jesus. O Monge construiu junto ao Santuário, um asilo para os pobres e doentes, dos quais cuidava. Assim começou a crescer ao lado da lapa do Bom Jesus um povoado, assumindo o mesmo nome de Bom Jesus da Lapa.

Graças às constantes peregrinações que se transformaram em grandes e permanentes romarias de fiéis ao Santuário do Senhor Bom Jesus, o povoado foi se desenvolvendo, transformando-se em vila em 1870, atingindo a categoria de cidade em 1923, quando foi emancipada, no dia 31 de agosto desse ano.

Monge

Francisco de Mendonça Mar

Fundador do Santúario em 1691 a História

Francisco de Mendonça Mar, mais conhecido como Padre Francisco da Soledade (Lisboa, 1657 — Bom Jesus da Lapa, 1722) foi um pintor, artista plástico, ourives, lapidário e sacerdote católico português, sendo reconhecido como fundador do Santuário de Bom Jesus da Lapa. Morreu com fama de santo. Nascido na cidade de  Lisboa no ano de 1657, Francisco de Mendonça Mar era filho de ourives, tendo aprendido a profissão e atuado junto a sua família em sua cidade natal até o ano de 1659, quando decide mudar-se para Salvador, onde instalou uma oficina de Ourivesaria. Rapidamente atingiu prestígio, quer pelos trabalhos com  ouro e pedras preciosas ou pela habilidade como pintor.

Esta última habilidade o fez ser convidado pelo então governador do Brasil Matias da Cunha m/a decorar as paredes do recém construído Palácio do Governador Geral do Brasil em Salvador.

Tendo a promessa de pagamento quando findados os trabalhos, Francisco empenhou recursos próprios para a conclusão dos trabalhos. No entanto, quando lhe foi cobrar o que lhe era de direito, ao invés do pagamento, foi, junto a seus escravosaçoitado e jogado à prisão. Sua liberdade só foi alcançada após redigir e enviar uma carta ao então Rei de PortugalDom João V, informando sobre seus infortúnios.

Após a obtenção de sua liberdade, despojou-se de todos os bens, saindo em caminhada pelo Sertão, conduzindo uma imagem do Senhor Bom Jesus e outra de Nossa Senhora da Soledade até encontrar uma aldeia de índios Tapuias situada entre uma grande formação rochosa e as margens do Rio São Francisco. Sendo esta rocha detentora de várias grutas, instalou-se na mais oculta destas.

Às margens do Rio São Francisco, iniciou então uma vida de eremita. Nos anos seguintes, os fiéis, tocados por seu exemplo, começaram a visitar a Gruta, onde Francisco realizava uma obra de caridade para com os próximos, evangelizando os Índios além de dar abrigo a enfermos e desabrigados.

Estas notícias chegaram aos ouvidos do então Arcebispo da Bahia, Dom Sebastião Monteiro da Vide. Este, enviou em 1702 um Visitador Geral que constatou serem verdadeiras todas as notícias sobre o culto do Senhor Bom Jesus e sobre a vida exemplar de Francisco. Sendo assim foi chamado a Salvador para que fosse iniciada sua preparação como padre, tendo sido ordenado no ano de 1705. Adotou o nome de Padre Francisco da Soledade, em honra à Virgem Maria. Sua morte deu-se após 1722, quando tinha cerca de sessenta e cinco anos de idade, sendo sepultado no interior da gruta.

Morro

O Morro de Bom Jesus da Lapa

As grutas estão entre as primeiras formas de abrigo utilizadas pelos seres humanos, desde tempos imemoriais como na chamada Pré-História, época em que as cavernas serviam como forma de proteção dos fenômenos da natureza, das intempéries, resguardando nossos ancestrais das chuvas, sol forte e também do frio, protegendo-os ainda contra animais e outros possíveis agentes agressores (BOGGIANI et al., 2007). As cavernas também serviram para expressões artísticas como as Pinturas Rupestres, local para sepultamento de mortos e também como espaço para as primeiras manifestações de fé.

Localizada no Morro do Bom Jesus, uma formação natural com 90 metros de altura e nove grutas em seu interior, está a mais famosa de todas as grutas – a gruta do Bom Jesus da Lapa, com 50 metros de comprimento por 15 metros de largura e 7metros de altura, é um espetáculo por si só. 

Ali dentro, a magnitude da natureza é um desafio para o homem. Do teto da gruta, a pedra parece saltar, prestes a cair. São estalactites que descem como pingentes e, de modo geral, é formada por rochas constituídas de litologias diversas, tais como granito, quartzito, calcário, arenito e outras (MORAIS et. al. 2009). 

De todo modo, não devemos encarar o morro apenas como uma elevação calcária, visto que, ele carrega mais que pedras, ou formações rochosas, tudo naquele lugar agrega os simbolismos mais diversos, fazendo revelar sempre o sagrado. Segundo Eliade (1992, p. 13), ela propõe o uso do termo hierofania para designar “o ato da manifestação do sagrado”, ou seja, “algo de sagrado se nos revela”[1]. Nessa perspectiva o morro se torna um Santuário sagrado, passando a ser um morro santo, nos permitindo vivenciar o divino, fazendo com que a experiência seja única.

Existem muitas formas de encarar e olhar o lado religioso das coisas, sempre haverá o olhar profano, por mais que o Morro do Bom Jesus não se diferencie de tantos outros morros, por ser de formação calcária, quando partimos para o sagrado, tudo isso se modifica. Podendo ser observado por diversas formas, o Morro do Bom Jesus, exibe variadas nuances, podendo ser apreciado pelo prisma geográfico, assim como também, pelo lado religioso. Sampaio (1955, p. 105) descreve assim o morro e a vegetação em volta:

Um monte, ou antes um retalho de montanha calcária, isolado no meio de uma planície, com a base quase dentro d’água e a cumiada coroada de cactos e de bromélias espinhentas entremeadas de picos, agulhas, pirâmides, minaretes das mais diversas formas, eis o Serrote da Lapa que visto do lado do rio, parece antes uma lasca de rocha pousada sobre uma mesa, que uma eminência com relevo subordinado á série orográfica da região a que pertence. (SAMPAIO, 1955, p.105)

A estrutura interna da gruta chama atenção por suas particularidades. A cobertura do Altar do Bom Jesus, em forma de uma telha colonial, é sustentada por duas grossas colunas. Na armação côncava, a pintura de Godofredo Guedes[2], natural da cidade de Riacho de Santana, retratando a transfiguração do Bom Jesus.

Observa-se nas laterais da gruta santa, bancos de pedra, altares nas cavidades da rocha, púlpitos e confessionários de cedro. O luxuoso lustre de cristal, pesando cem quilos, preso na abóbada da gruta, iluminava o Altar-mor, dando um equilíbrio estético a esta catedral de pedra que, mesmo sendo um local rústico, totalmente natural, possuía estrutura das grandes catedrais do mundo.

Para acolher seus fiéis, revela, na primeira vista de quem entra, um local sagrado, de oração e respeito.

“Oh Bom Jesus da Lapa, eu vos adoro e vos amo”.[3]

Uma catedral natural esculpida pelas mãos do criador, que encanta quem a contempla, uma obra magnânima chamada Itaberaba, que na língua dos indígenas da etnia Tupi, quer dizer Pedra Resplandecente.

À frente da cidade santa, a imagem do Bom Jesus é um marco no local sagrado onde o Deus filho escolheu um calvário para erguer o seu santuário e ali acolher a todos os homens de fé e de boa vontade.

Homens iguais ao Padre Francisco de Soledade, que movidos pelo Espirito Santo de Deus buscam o calvário na gruta, trazendo sobre si os pesos de suas cruzes, genuflexos, onde se ajoelham e choram pelas suas culpas, desabafando as suas dores, curando suas enfermidades e saindo aliviados e renovados pela fé cristã.

O Fidalgo Sebastião da Rocha Pita (1730) e Frei Agostinho de Santa Maria (1722), ambos historiadores, traçaram a fundação do Santuário, mostrando que por aqui passavam bandeirantes, fidalgos, degredados, aventureiros, tropeiros, negros, índios, ricos e pobres e, a todos, Francisco de Mendonça Mar, o Monge da Gruta, mostrava a imagem do Bom Jesus e a da Mãe da Soledade, curando-lhes o corpo e a alma, através da fé.

[1] ELIADE, M. O sagrado e o profano: a essência das religiões. Tradução Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

[2] Nascido na cidade de Riacho de Santana – Bahia, Godofredo Guedes mudou-se para Minas Gerias e lá destacou-se como músico e artista plástico. Faleceu em 1983.

[3] BARÓBIA, Frei Valentim. Refrão do Hino do Bom Jesus, 1903.

O Santuário

O Santuário do Bom Jesus da Lapa

O abrigo foi descoberto em 1691 pelo português Francisco Mendonça Mar, que exercia, como seu pai, a profissão de ourives e pintor. Com vinte e poucos anos de idade, em 1679, chegou a Salvador da Bahia, onde instalou sua própria oficina. Em 1688, foi encarregado de pintar o palácio do Governador Geral do Brasil, em Salvador, mas, ao invés de receber o pagamento, Francisco foi levado à cadeia e cruelmente açoitado. Tocado pela divina graça, reconhecendo a vaidade do mundo, ele aprendeu que a única coisa que vale é a salvação. Distribuindo seus bens, fez-se pobre e, acompanhado de uma imagem do Cristo crucificado, enveredou-se pelo sertão adentro. Caminhou entre tribos de índios antropófagos, passou fome, sofreu o calor do sol.

Uma tarde, depois de vários meses de incessante caminhada, avistou um morro, subiu uma áspera ladeira e, por uma abertura na pedra, penetrou numa gruta. Lá dentro, encontrou uma cavidade ideal para colocar a cruz que levava. Ali, à margem do rio São Francisco, começou uma vida de eremita.

Dedicado à oração e à penitência, o monge logo percebeu que o amor a Deus não pode ser isolado da vida; então começou a trabalhar em favor dos mais necessitados, trazendo para junto de si pobres, doentes, infelizes e aleijados, a fim de servi-los com amor.

No ano de 1702, a pedido do arcebispo da Bahia, dom Sebastião Monteiro de Vide, foi a Salvador preparar-se para o sacerdócio. Estudou durante três anos e, em 1705, foi ordenado Padre. Tomando o nome de Padre Francisco da Soledade após a ordenação, voltou à Lapa onde viveu até sua morte, em 1722.

O Romeiro

Centenas de fiéis em Bom Jesus da Lapa

Neste santuário do Bom Jesus da Lapa, os milhões de romeiros peregrinos convergem em romarias para agradecer, cumprir as suas promessas e pedir ao padroeiro do sertão baiano, ao Senhor Bom Jesus da Lapa e a Nossa Senhora da Soledade que os cubra de saúde, prosperidade e bênçãos infinitas.

Ano após ano, os romeiros chegam e cumprem um ritual que se repete há mais de três séculos. Primeiro, ao chegarem à cidade do Bom Jesus da Lapa, logo na entrada, são recebidos pela imagem do Cristo de braços abertos. Um Cristo que os acolhem e amparam.

Passado esse primeiro momento, os romeiros são direcionados ao centro da cidade onde está localizada a Praça da Fé com os 12 Leões da tribo de Judá, com colunas em formato de arco, tendo em cada ponta da Praça um jardim com a imagem de Deusas gregas da agricultura, com um chafariz central em formato de fonte europeia e com a imagem do Monge Francisco de Mendonça Mar.

Em seguida, os romeiros seguem em direção à Praça do Monsenhor Turíbio Vilanova, que os recepciona para o desembarque. Vencida essa primeira etapa, seguem para as suas estalagens, deixando suas bagagens, e logo em seguida passam pelo portal na frente da enorme Praça da Fé que antecede a entrada da Gruta Sagrada.

Continuando sua jornada de fé, eles encontram a imagem de um anjo com uma trombeta anunciando a chegada a gruta do Bom Jesus da Lapa. No entorno da Gruta Santa as imagens dos apóstolos cercam a Esplanada da Fé, recepcionando os devotos. Toda essa jornada é marcada por manifestações de júbilo e fé inabaláveis. Tudo o que se vê é de uma grandiosidade ímpar, quer seja pela exuberância da natureza, quer seja pela aura de fé presente em toda a cidade.

Ainda na Gruta Sagrada, vê-se ao lado esquerdo o grande altar onde são celebradas as missas campais e a direita, majestoso, está o Rio São Francisco com a Ponte Gercino Coelho.

Ao chegarmos à frente da enorme gruta de pedra encontramos a imagem do Monge Francisco com seu crucifixo e ao peito a imagem de Nossa Senhora da Soledade. Uma porta de madeira talhada guarda a gruta em formato de pegada e, ao adentrá-la, percebemos as estalactites e estalagmites. Todo ambiente é repleto de paz, com grutas que guardam outras imagens sacras: a imagem do Senhor Jesus com a cruz à esquerda, a gruta do Santíssimo à direita, e em frente o altar principal do Bom Jesus.

Seguindo o seu caminho de fé, os romeiros encontram à sua direita uma visão única da Ponte Lapense. Essa ponte foi criada de forma natural depois de uma das explosões ocorridas no santuário que permitiu aquele esplendor. Temos também o trono que foi esculpido para homenagear o reinado do Divino Espírito Santo.

Mais adiante, passando a segunda entrada, conhecida por suas paredes frias pois nelas correm água, que os romeiros colhem e passam em suas feridas para obter a cura, eles seguem em direção à gruta de Nossa Senhora da Soledade, com um imenso altar, repleto de diversas grutas sacras que hospedam as imagens dos apóstolos em formato de animais.

Em meio a tantas imagens que expressam a fé, chama especial atenção a imagem do Senhor morto envolto na sua armação de vidro. Ao subir a rampa do altar-mor, temos uma linda obra em mosaico feita pelo artista local Léo Costa.

Passando por esse corredor, os fiéis chegam à Sala do Milagres que guarda todo o testemunho da fé.